A figura do diabo: mito ou necessidade histórica?
Por: Uismael Freire
Você já parou pra pensar que talvez o diabo não seja uma entidade original, mas sim uma invenção nascida das necessidades teológicas e culturais de um povo? Pois é isso que muitos estudiosos defendem: a figura do diabo surgiu não de uma essência perversa, mas como uma forma de explicar a presença do mal sem atribuí-lo diretamente a Deus.
Um panorama geral
Período pré‑exílico (antes do exílio babilônico, antes de cerca de 586 a.C.):
Você e eu cresceríamos pensando que qualquer desastre, enfermidade ou tragédia vinha diretamente de Deus. O conceito de mal não era personificado; era entendido como uma ação de Yahweh. Em Isaías 45:7 (NTLH) Deus mesmo diz:
“Eu, o Senhor, sou o Criador de tudo que existe, e eu faço Shalom (paz, bem-estar); eu faço o que é ruim – às vezes traduzido como mal”.
Ou seja: não havia uma ontologia do mal separada tudo vinha d’Ele, e sem divisão entre “bem” e “mal” como entidades distintas.
Período pós‑exílico (após o retorno do exílio, 539 a.C. em diante):
Depois do sofrimento do exílio, a teologia judaica passou por uma mudança radical: Deus não podia mais ser visto como o criador do mal. Isso gerou um problema: como explicar o sofrimento humano sem atribuí-lo a Ele? A solução foi a criação de uma figura separada, um agente do mal, cujo nome e função passaram a explicar as adversidades da vida.
Citações de estudiosos que validam essa evolução
Um artigo acadêmico na SciELO argumenta que a teologia judaica do Segundo Templo recorreu a Satanás, Belial ou outras figuras como resposta ao sofrimento que não podia mais vir diretamente de Deus. Isso ajudou a entender por que “alguns cristãos modernos ainda creem no diabo” SciELO.
Os estudiosos críticos dizem que os judeus inventaram Satanás justamente para desfazer essa responsabilidade divina. Evidence Unseen.
A historiadora Elaine Pagels, em The Origin of Satan, descreve como figuras demoníacas praticamente não aparecem no Judaísmo bíblico aparecem tardiamente, moldadas por interesses sectários e sociais do primeiro século: o diabo surge como necessidade retórica e não como entidade original do Antigo Testamento The New Yorker.
E ainda: o Daily Biblical Archaeology explica que “o conceito do diabo começa a surgir nos textos judaicos dos séculos II e I a.C., como em 1 Enoque e Sabedoria de Salomão” antes disso, o “serpente” de Gênesis não era identificado como Satanás Biblical Archaeology Society.
Exegese de Isaías 45:7 (NTLH) e o contexto teológico
Quando você lê Isaías 45:7 na versão NTLH
“Eu faço Shalom (paz, bem-estar); eu crio o que é desgraça, às vezes traduzido como mal”
Estás lendo um retrato de uma visão monoteísta rígida, na qual Deus é absolutamente soberano sobre todas as coisas. Não há margem para entidades independentes que façam o mal. O “mal” ali é mais sobre desgraça, calamidade ou adversidade, e é visto como uma manifestação de Deus.
Mas passado o exílio, essa visão passou despercebida cosmicamente. Ninguém queria mais falar que Deus trazia doença, derrota ou pobreza. Foi aí que surgiu a ideia de um adversário-coadjuvante, alguém que pudesse assumir essa função, tirando Deus do papel de gerador direto do mal daí nasce Satanás.
Por que o diabo virou “necessário”?
Imagina que a vida é cheia de problemas o exílio, a pobreza, as opressões de potências estrangeiras, doenças, injustiças. Se Deus não podia mais ser a causa disso, precisava ter alguém para explicar. É aí que você precisa “inventar alguém para fazer o mal”. Foi o que muitos teólogos e escritores judaicos começaram a fazer: desenvolver uma figura mitológica que representasse o mal.
Em textos como o Livro de Enoque, o diabo aparece como anjo rebelde; em outros como o Livro da Sabedoria, atribui-se a ele a culpa pela inveja que trouxe a morte ao mundo. Isso aponta claramente que a figura de Satanás foi moldada em resposta à necessidade de exonerar Deus, mantendo ainda a explicação teológica para o mal.
Paralelos culturais e influências externas
Vale lembrar que, nesse período pós‑exílico, os judeus estavam sob a influência cultural persa e zoroastrista. O zoroastrismo já tinha um dualismo claro entre o Deus do bem (Ahura Mazda) e o espírito maligno (Angra Mainyu, ou Ahriman) en.wikipedia.org. Não é surpresa que a ideia de um adversário cósmico tenha sido absorvida e adaptada.
Yehezkel Kaufmann, um dos estudiosos-referência da religião bíblica de Israel, embora não trate do diabo em si, defende que o monoteísmo israelita não é derivado do paganismo, mas algo radicalmente novo porém, após o exílio, essa novidade precisou conciliar a realidade do mal presente na vida humana sem manchar a imagem de Yahweh en.wikipedia.org.
O diabo como mito: resumo do argumento teológico-histórico
Então, resumindo de forma direta pra você:
- Antes do exílio, o mal era atribuído diretamente a Deus não existia um inimigo espiritual separado.
- Depois do exílio, com a necessidade cultural de exonerar Deus dessa responsabilidade, surgiu a figura mítica do diabo.
- Estudiosos críticos afirmam que essa figura foi inventada como resposta à questão do mal no mundo apontando-a como necessária, não original.
- Textos apocalípticos judaicos moldaram Satanás como adversário cósmico, muitas vezes sob influência dualista persa.
- Assim, o diabo é um mito funcional, criado para preencher a lacuna teológica de explicar o mal sem manchar a bondade absoluta de Deus.
Citação de Bamberger sobre anjos caídos
Bernard Jacob Bamberger, autor de Fallen Angels (1952), traça como o Judaísmo e o Cristianismo tentaram explicar o mal no universo de um Deus bom desenvolvendo mitos como o dos anjos caídos e a rebelião de Satanás, com funções simbólicas bem delimitadas dentro dessas tradições en.wikipedia.org.
Porque isso importa pra quem lê esse blog hoje?
Se você está lendo isso e pensando como explicar o mal, o sofrimento, ou mesmo estudar religião comparada, esse olhar meio revisionista te ajuda a entender que a figura do diabo não é fixa, atemporal ou universal mas sim fruto de um contexto histórico-cultural específico. Isso muda como você interpreta não só a Bíblia especialmente o AT, mas também tradições cristãs posteriores que incorporaram esse mito e o transformaram em terror, moralidade ou psicologia do pecado.
Fica claro que a figura do diabo não nasce de uma essência maligna independente, mas sim de uma necessidade teológica e cultural dentro do Judaísmo pós-exílico. A partir do momento em que Deus não podia mais ser visto como criador do mal, era preciso outro agente: e assim nasceu Satanás, Belial, o adversário. Você pode chamar isso de mito mas foi um mito funcional, e que gerou um legado espiritual profundo.
Se você curtiu essa abordagem e quer continuar explorando esse tipo de tema, fica à vontade pra navegar pelo blog! Temos vários outros artigos sobre história do pensamento religioso, evolução das imagens de Deus e do mal, e interpretações bíblicas fora do senso comum. Dá uma olhada e mergulhe nos outros conteúdos prometo que vai ser fascinante!
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