Desvendando os “Reis da Terra”: Uma Chave para o Apocalipse que Você Nunca Viu
Uma tese de: Kenneth L. Gentry, Jr.
Por: Uismael Freire
Você já se pegou lendo o livro do Apocalipse e se sentindo completamente perdido? Não se preocupe, você não está sozinho. Esse é, sem dúvida, o livro mais intrigante e, para muitos, o mais incompreensível da Bíblia. A gente lê sobre dragões, bestas, números misteriosos e, é claro, “os reis da terra”, e a nossa imaginação voa para cenários de filmes de ficção científica. Mas e se eu te dissesse que a chave para desvendar um dos maiores mistérios do Apocalipse está bem debaixo do seu nariz, na história do primeiro século?
Muitos de nós fomos ensinados que os “reis da terra” são os governantes políticos de todas as nações, em todas as épocas, que se opõem a Jesus. Essa é a interpretação mais comum, e faz sentido, certo? O diabo está no comando do mundo, e os reis servem a ele. No entanto, e se houvesse uma interpretação muito mais específica e, ironicamente, muito mais poderosa? Prepare-se, porque o que você vai descobrir agora pode mudar a sua forma de ler não só o Apocalipse, mas toda a Bíblia.
Neste artigo, vamos mergulhar na fascinante tese de estudiosos como Kenneth L. Gentry, Jr., que argumentam que os “reis da terra” do Apocalipse não são os imperadores romanos ou governantes globais, mas sim a aristocracia religiosa de Jerusalém. Sim, a mesma elite que estava intimamente ligada ao Templo e ao Sinédrio, e que foi a principal responsável por se opor a Jesus e perseguir seus seguidores. Através de uma análise detalhada do contexto do Novo e do Antigo Testamento, você vai entender como essa crítica irônica e profética se encaixa perfeitamente na mensagem de julgamento que Jesus e João anunciaram.
A Frequência Curiosa dos “Reis da Terra”
Vamos começar pelo básico. A frase “reis da terra” é muito mais comum no Apocalipse do que em qualquer outro livro do Novo Testamento. Ela aparece oito vezes, com a maioria das menções concentrada nos capítulos finais: Apocalipse 1:5; 6:15; 17:2, 18; 18:3, 9; 19:19; e 21:24. Em comparação, nos outros livros do Novo Testamento, a frase aparece apenas duas vezes, em Mateus 17:25 e Atos 4:26.
Essa frequência notável nos faz parar para pensar. Por que João dá tanta ênfase a esses reis? E mais importante, quem eles realmente são?
Quando a gente lê o Apocalipse, a maioria das referências a esses reis é negativa. Eles são descritos como opositores de Cristo e do seu povo. Eles se envolvem em atos de imoralidade com a “prostituta babilônica” e se tornam seus súditos. A única exceção é em Apocalipse 1:5 e 21:24, onde a menção é mais neutra, reforçando a soberania de Cristo.
A interpretação mais popular diz que esses reis são os governantes das nações que se aliaram a Roma no primeiro século, ou, de forma mais ampla, todos os líderes políticos que se opuseram à Igreja ao longo da história. E, claro, Jesus é o governante sobre todos eles. Mas será que essa interpretação é a única, ou a mais correta para o contexto específico de João?
O estudioso Kenneth L. Gentry, Jr., em sua obra, sugere uma visão diferente. Ele argumenta que os “reis da terra” de João são um grupo muito específico: a aristocracia religiosa de Jerusalém, aqueles que detinham o poder no Sinédrio e no sistema do Templo. Essa não é uma visão popular, mesmo entre outros preteristas (aqueles que creem que a maioria das profecias do Apocalipse já se cumpriu no primeiro século), mas é uma tese poderosa que merece nossa atenção.
A Tese de Gentry: Por Que a Aristocracia de Jerusalém?
A tese de Gentry não é baseada em suposições, mas em uma análise minuciosa do contexto bíblico e histórico. Ele defende a ideia de que a frase “reis da terra” é uma crítica direta e profética contra os líderes judeus que rejeitaram Jesus. Vamos ver os argumentos dele, um por um.
1. A Atmosfera Geral do Novo Testamento
O Novo Testamento, do começo ao fim, aponta para um evento catastrófico: o julgamento iminente sobre Israel, que culminaria na destruição do Templo em 70 d.C.
- João Batista e Jesus: Logo no início, João Batista já estava alertando sobre o julgamento que viria. Ele chamou a liderança religiosa de “ninhada de víboras” e previu o julgamento divino. Jesus fez o mesmo, denunciando os fariseus e saduceus e prevendo o castigo de Deus.
- As Advertências de Jesus: Jesus advertiu seus discípulos sobre a perseguição que viria das sinagogas judaicas. Ele prometeu julgar Israel ainda na vida de seus discípulos, antes mesmo que eles tivessem percorrido todas as cidades de Israel. Essa promessa se referia diretamente à destruição de Jerusalém em 70 d.C.
- As Parábolas: As parábolas de Jesus são cheias de denúncias contra os líderes de Israel. Ele avisou que o Reino de Deus lhes seria tirado e que a cidade santa seria queimada.
- O Discurso do Monte das Oliveiras: Este discurso é a pedra fundamental para entender o Apocalipse. Nele, Jesus profetiza a destruição do Templo e o julgamento sobre a Judeia, tudo para ser cumprido na geração do primeiro século. Muitos estudiosos, incluindo Gentry, veem o Apocalipse como uma “expansão” ou “ampliação” desse sermão de Jesus.
- A Pregação dos Apóstolos: Após a ascensão de Jesus, a pregação apostólica, registrada em Atos, culpa repetidamente os líderes judeus pela crucificação de Cristo e pela perseguição dos cristãos. Isso nos mostra que a oposição não era apenas romana, mas também e principalmente judaica. A ideia de João chamar essas autoridades de “os reis da terra” é, portanto, totalmente plausível.
2. O Cenário Judaico do Apocalipse
Você sabia que o Apocalipse é o livro mais “judeu” de todo o Novo Testamento? Ele está repleto de referências ao Antigo Testamento, gramática hebraica, e imagens judaicas.
- Sinagogas de Satanás: Em suas cartas às igrejas de Esmirna e Filadélfia, Jesus critica fortemente as sinagogas judaicas que se opunham aos cristãos, chamando-as de “sinagogas de Satanás”.
- Imagens Judaicas: O livro é cheio de imagens do Templo, do ritual de adoração e de outras referências judaicas.
- Discurso do Monte das Oliveiras: A alusão constante a este discurso, que foca no julgamento de Israel e do Templo, reforça o foco judaico do livro.
- Nova Jerusalém: O objetivo do Apocalipse é a vinda da Nova Jerusalém, que substituiria a antiga e histórica Jerusalém, a cidade que estava prestes a ser julgada e destruída.
- Contexto das Igrejas: A maioria das igrejas da Ásia Menor, para as quais João escreveu, era formada por cristãos de origem judaica. Eles estavam no meio da oposição e da perseguição dos judeus que não acreditavam em Jesus.
3. O Método Interpretativo de João
João não era um “copiador” do Antigo Testamento. Ele era um profeta que o “reaplicava” a novas circunstâncias, usando uma técnica que podemos chamar de ironia retórica.
- Reaplicação Criativa: Em vez de citar diretamente, João pegava conceitos e profecias do Antigo Testamento e os aplicava à sua nova realidade. Por exemplo, ele usa os nomes de cidades pagãs como “Egito” e “Babilônia” para se referir a Jerusalém, a cidade santa que se tornou corrupta.
- Ironia Retórica: João gostava de inverter o valor dos símbolos. Por exemplo, em Apocalipse 3:9, ele diz:
“Porei na sua frente os que pertencem à sinagoga de Satanás, aqueles que dizem que são judeus, mas não são. Eu os farei vir e se curvar diante de você, para que fiquem sabendo que eu o amo.” (Apocalipse 3:9 NTLH)
Aqui, uma promessa feita a Israel (de que as nações se curvariam diante dela) é ironicamente aplicada aos crentes gentios, enquanto os judeus que os perseguiam são forçados a se submeter a eles. A frase “reis da terra”, que no Antigo Testamento (na Septuaginta) geralmente se refere a líderes gentios, é transformada por João, por uma ironia retributiva, para se referir à aristocracia religiosa de Jerusalém.
A Bíblia nos mostra um precedente para isso. No livro de Lamentações, é dito que “os reis da terra” não acreditavam que um inimigo poderia entrar em Jerusalém. João, então, reaplica essa ideia de forma irônica, mostrando que a própria liderança religiosa de Jerusalém, os novos “reis da terra”, testemunharia a sua destruição.
A Palavra Grega “Gē” (Terra)
Outro ponto crucial na tese de Gentry é a palavra grega gē. A maioria das Bíblias a traduz como “terra” no sentido de planeta. No entanto, no contexto do Apocalipse e da história de Israel, ela tem um significado muito mais específico.
- A Terra de Israel: Gentry argumenta que a maioria das 82 ocorrências de gē no Apocalipse se referem à Terra de Israel, a Terra Santa. A Terra Prometida a Abraão era o foco central na identidade nacional de Israel.
- O Foco do Discurso de Jesus: O Discurso do Monte das Oliveiras, que serve de pano de fundo para o Apocalipse, se concentra na destruição do Templo e no julgamento da Judeia, com advertências aos que estivessem na “terra” (Lucas 21:23).
“Pois haverá muita miséria na terra e grande ira contra este povo.” (Lucas 21:23 NTLH)
Aqui, “terra” claramente se refere à Terra de Israel. Gentry conclui que João usa gē no mesmo sentido, para mostrar que a ira de Deus não era sobre o mundo inteiro, mas sobre a nação que rejeitou o seu Messias.
A Palavra Grega “Basileus” (Rei)
A palavra “rei” (basileus) também pode ter um significado mais amplo do que a gente imagina.
- Significado Amplo: Na Bíblia, a palavra “rei” não se aplica apenas a monarcas. Herodes Antipas, por exemplo, era um tetrarca, mas era chamado de “rei”. Até o imperador romano, que era um príncipe, era tratado como “rei”.
- Chefe ou Representante: A palavra também pode se referir a um “chefe ou representante de um grupo, alguém que reina ou preside a um evento”. A aristocracia de Jerusalém, incluindo o sumo sacerdote e o Sinédrio, se encaixa perfeitamente nesta definição.
- O Sumo Sacerdote: O sumo sacerdote era a autoridade máxima de Israel. O historiador Josefo os descreve como a aristocracia dominante da Judeia e os governantes de fato. O turbante do sumo sacerdote era um símbolo de sua autoridade, e alguns até diziam que ele deveria ser superior a qualquer rei.
- O Sinédrio: O Sinédrio, o tribunal superior de Israel, era liderado pelos sumos sacerdotes, os anciãos e os escribas. Foram eles que conspiraram para prender e matar Jesus. Eles temiam que Jesus tomasse seu poder, e por isso o entregaram a Pilatos. Eles disseram: “Não temos outro rei a não ser o Imperador!” (João 19:15). Que declaração irônica e profética!
A oposição a Jesus e seus seguidores veio dessas autoridades religiosas. Eles eram os verdadeiros “reis da terra” em Israel, os líderes que detinham o poder sobre a nação.
O Precedente de Atos 4 e o Salmo 2
Se você ainda tem dúvidas, o livro de Atos nos dá a prova final de que a igreja primitiva já usava a frase “reis da terra” para se referir aos líderes de Israel.
Em Atos 4, depois que Pedro e João foram presos e ameaçados pelo Sinédrio, a igreja primitiva se reuniu para orar. Eles citaram o Salmo 2, um salmo messiânico que fala da oposição contra o Messias. O Salmo 2 diz:
“Por que as nações se revoltaram? Por que os povos fizeram planos tolos? Os reis da terra se prepararam, e os governantes se uniram contra o Senhor e contra o rei que ele escolheu.” (Salmo 2:1-2 NTLH)
O Salmo 2 original fala de “reis da terra” gentios. Mas a igreja primitiva, em Atos 4, reaplica o texto para a sua própria situação, dizendo:
“Pois de fato Herodes e Pôncio Pilatos, com os não judeus e com o povo de Israel, se reuniram nesta cidade para conspirar contra Jesus, o teu dedicado servo que escolheste para ser o Messias.” (Atos 4:27 NTLH)
Você percebeu? Eles incluíram Herodes, Pôncio Pilatos, mas também “o povo de Israel” e seus líderes religiosos como os “reis da terra” que se opuseram a Jesus. Isso mostra que a igreja primitiva já tinha a prática de reaplicar passagens do Antigo Testamento para se referir aos seus próprios oponentes, mesmo que o texto original falasse de gentios. João, ao escrever o Apocalipse, estava fazendo exatamente a mesma coisa.
Um Pouco de Escatologia: Preterismo e a Relevância para Hoje
A tese de Gentry se encaixa perfeitamente na visão escatológica conhecida como preterismo, que interpreta as profecias do Apocalipse como eventos que já se cumpriram no primeiro século d.C., especialmente com a destruição de Jerusalém em 70 d.C.
A destruição do Templo em 70 d.C. foi um evento histórico-redentor de proporções gigantescas. Foi o fim da Antiga Aliança e a confirmação da Nova. O Apocalipse não fala de um futuro distante, mas de um evento que estava prestes a acontecer.
Muitos de nós, criados em um contexto de escatologia futurista (que o Apocalipse ainda está para se cumprir), temos dificuldade de enxergar isso. No entanto, uma vez que a gente entende que o foco de João era o julgamento de Israel por rejeitar o seu Messias, o livro se torna muito mais claro e relevante para a nossa fé. Ele nos lembra que Deus cumpre suas promessas de julgamento e de salvação, e que o Cordeiro que foi morto, Jesus, venceu sobre todos os seus inimigos.
Conclusão: A Vinda do Cordeiro Vencedor
A tese de Kenneth L. Gentry, Jr. sobre a identidade dos “reis da terra” é uma luz que ilumina as páginas mais escuras do Apocalipse. Ao entender que a frase se refere à aristocracia religiosa de Jerusalém, o texto ganha um sentido de urgência e um poder dramático que a gente não encontra em outras interpretações.
Foram esses líderes que asseguraram a morte de Cristo, que exerceram o seu poder na Terra de Israel e que perseguiram os seguidores de Jesus. O livro do Apocalipse é, em última análise, a vindicação desses seguidores perseguidos. O Cordeiro que foi morto agora é o Rei dos reis e Senhor dos senhores, e o julgamento que Ele prometeu a Jerusalém e aos seus líderes finalmente se cumpriu. A morte de Jesus, central para o livro, é a fonte de toda a nossa esperança e vitória. E a mensagem final é clara: Deus é fiel para cumprir suas promessas, tanto de julgamento quanto de salvação.
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