Quem é a Besta que Sobe da Terra? Uma Análise de Apocalipse 13 sob a Perspectiva Preterista
Por: Uismael Freire
Se você já leu o capítulo 13 de Apocalipse, sabe que ele é um dos textos mais intrigantes e discutidos da Bíblia. Depois de João nos apresentar a besta que sobe do mar, surge uma outra figura igualmente misteriosa: a besta que sobe da terra. Quem ela é? Qual o seu papel na história da redenção?
Hoje, vamos caminhar juntos por essa passagem, olhando para cada detalhe à luz do contexto histórico do primeiro século e da interpretação preterista completa. Nosso objetivo é clarear o texto para que você entenda que essa visão não é sobre um futuro distante e assustador, mas sobre eventos que já se cumpriram, confirmando que Cristo reina plenamente.
O contexto de Apocalipse 13: o palco da profecia
Para entender quem é a besta que sobe da terra, você precisa lembrar que Apocalipse foi escrito para cristãos do primeiro século, sob perseguição. Roma dominava o mundo e Israel, em vez de resistir ao paganismo, havia se aliado ao Império. João escreve para mostrar que aquela opressão não era eterna o Cordeiro venceria.
Em Apocalipse 13:11 está escrito:
“Depois vi outro monstro que subia da terra. Ele tinha dois chifres como os de um cordeiro, mas falava como um dragão” (NTLH).
Esse “outro monstro” surge depois da primeira besta, que representava Roma. Agora, João descreve uma figura ligada mais diretamente à terra de Israel.
O teólogo David Chilton comenta: “O Apocalipse é um livro saturado de imagens do Antigo Testamento. Quando João fala de ‘terra’, ele não se refere a todo o globo, mas à terra da aliança Israel” (The Days of Vengeance, p. 340).
O significado da “terra”
Aqui está um ponto-chave. Muitos intérpretes modernos tentam ler “terra” como se fosse “mundo inteiro” ou até aplicam ao mapa político atual (há quem diga que seja os EUA!). Mas, no contexto bíblico, “terra” é muitas vezes usada para falar de Israel.
Veja Jeremias 22:29:
“Ó terra, terra, terra! Escute o que eu, o Senhor, estou dizendo” (NTLH).
Jeremias não estava pregando para o planeta Terra como um todo, mas para a terra de Israel. O mesmo acontece em Levítico 18:25:
“Por isso aquela terra ficou impura e eu castiguei o pecado dela, e ela vomitou os seus moradores” (NTLH).
Kenneth Gentry confirma: “O uso veterotestamentário de ‘terra’ (gē) aponta para a terra prometida, não para a totalidade geográfica do mundo” (Before Jerusalem Fell, p. 213). Ou seja, João está falando de algo que surge do próprio Israel.
Dois chifres como de cordeiro: poder religioso e legislativo
João diz que essa besta tinha “dois chifres como os de um cordeiro”. No simbolismo bíblico, chifres representam poder. Aqui, não são chifres de um animal feroz, mas de cordeiro, indicando uma aparência de mansidão, espiritualidade e religiosidade.
Esses dois chifres simbolizam dois poderes vigentes em Israel no primeiro século: o poder legislativo (escribas e fariseus) e o poder religioso (sacerdotes e levitas). Na prática, eram as duas forças que controlavam a vida do povo, tanto na lei civil quanto na fé.
R. C. Sproul comenta: “A ironia é que o sistema religioso, que deveria guiar o povo à verdade, tornou-se instrumento de opressão, mascarando-se de piedade enquanto falava como o dragão” (The Last Days According to Jesus, p. 121).
Falava como dragão: a voz da opressão
Dizer que falava como dragão é dizer que sua autoridade vinha da mesma fonte que o dragão Satanás que em Apocalipse 12 é associado à perseguição contra os santos. Historicamente, isso aponta para a dinastia herodiana, alinhada com Roma.
Atos 12:1-3 relata: “Naquele tempo o rei Herodes começou a perseguir algumas pessoas da igreja. Ele mandou matar à espada Tiago, irmão de João. Quando viu que isso agradava aos judeus, mandou também prender Pedro. Isso aconteceu durante a Festa da Páscoa” (NTLH).
Aqui vemos a voz do dragão ecoando na autoridade política e religiosa.
Chilton observa: “A aliança de Israel com Roma não foi apenas política; foi espiritual, colocando-se contra o Messias” (The Days of Vengeance, p. 342).
Autoridade recebida da primeira besta
Apocalipse 13:12 diz:
“Ele usava toda a autoridade do primeiro monstro, na sua presença, e obrigava a terra e os seus moradores a adorarem o primeiro monstro, cujo ferimento mortal havia sido curado” (NTLH).
A besta da terra agia sob a autoridade de Roma, impondo sua vontade em Israel.
João 19:12-15 descreve isso perfeitamente:
“Quando Pilatos ouviu isso, procurou soltar Jesus. Mas os líderes judeus gritavam: Se o senhor deixar esse homem livre, não é amigo do Imperador! Quem diz que é rei é contra o Imperador. (…) Os chefes dos sacerdotes disseram: O nosso único rei é o Imperador!” (NTLH).
Gentry destaca: “A submissão dos líderes judeus a César é a prova de sua prostituição espiritual” (Before Jerusalem Fell, p. 215).
A adoração forçada à primeira besta
Aqui, “adorar” não significa cantar louvores, mas se submeter totalmente, reconhecer como autoridade suprema. Israel fez isso com Roma, indo contra sua própria identidade como povo de Deus.
Atos 17:7 registra: “Eles estão dizendo que existe outro rei chamado Jesus, e com isso estão contra as leis do Imperador” (NTLH).
O povo foi ensinado a obedecer a César como se fosse o próprio Deus.
Sproul lembra: “Quando a lealdade política substitui a fidelidade a Deus, isso é idolatria, independentemente da forma que assuma” (The Last Days According to Jesus, p. 128).
O engano dos habitantes da terra
Apocalipse 13:14 diz: “Ele enganava os moradores da terra com os milagres que havia sido permitido fazer na presença do primeiro monstro. E mandou que fizessem uma imagem em honra do monstro que havia sido ferido pela espada e continuava vivo” (NTLH).
Esses “milagres” eram atos de poder e autoridade política que davam legitimidade ao sistema. Quem não se submetesse, enfrentava sanções severas até mesmo econômicas.
Chilton conclui: “O sistema religioso de Israel foi o falso profeta que levou a nação a confiar no poder de Roma, e por isso foi destruído junto com Jerusalém em 70 d.C.” (The Days of Vengeance, p. 345).
Conclusão
A besta que sobe da terra não é uma figura futura que ainda vai aparecer. É a representação do sistema religioso e político de Israel do primeiro século, aliado a Roma, perseguindo os santos e rejeitando o Messias. João descreve essa realidade para encorajar os cristãos de sua época: o fim desse sistema viria rapidamente.
Essa interpretação não apenas faz sentido historicamente, mas mantém a coerência bíblica, usando as Escrituras para interpretar as Escrituras, em vez de especulações modernas.
Assim como no primeiro século, ainda existem “bestas” que se disfarçam de cordeiro, mas falam como dragão. Elas podem ser sistemas, ideologias ou líderes que tentam tomar o lugar de Cristo na tua vida. A tua tarefa é discernir, permanecer fiel a sua fé e não se deixar seduzir por discursos que parecem piedosos, mas negam a soberania de Jesus.
Lembra-se: Ele já venceu. Você vive no tempo da plenitude da graça.
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