Por que buscar o que já habita? Uma análise preterista sobre “buscar o espírito santo”

Por que buscar o que já habita? Uma análise preterista sobre “buscar o espírito santo”

Por: Uismael Freire

Você já parou para pensar se a prática de “buscar o Espírito Santo” em cultos especiais é, de fato, bíblica? Em muitas igrejas, é comum que se marquem dias e horários para encontros cujo foco é receber o Espírito Santo. Mas e se essa busca não for necessária? E se estivermos procurando por algo que, segundo as Escrituras, já nos foi plenamente concedido?

Neste artigo, vamos explorar essa questão sob a perspectiva do preterismo completo, especialmente a partir das reflexões do professor Uismael Freire. Vamos entender por que, segundo essa visão, buscar o Espírito Santo é não apenas desnecessário, mas também antibíblico. E, para isso, recorreremos à análise exegética e hermenêutica de textos fundamentais como Joel 2, Atos 2, 1 Coríntios 6:19 e Gálatas 2:20, sempre com base na versão NTLH.

A profecia de Joel 2 já se cumpriu

O ponto de partida para essa discussão é a profecia registrada em Joel 2:28-29: “Depois disso eu, o Senhor, derramarei o meu Espírito sobre todas as pessoas. Os filhos e as filhas de vocês anunciarão a minha mensagem; os velhos terão sonhos e os moços terão visões. Naqueles dias eu derramarei o meu Espírito até mesmo sobre os escravos e as escravas”. Essa profecia, para muitos, ainda está em aberto. Mas para o preterismo completo, ela já se cumpriu integralmente.

Segundo Atos 2:16-17, o apóstolo Pedro afirma explicitamente: “O que está acontecendo é o que o profeta Joel disse: ‘É isto o que eu farei nos últimos dias, diz Deus: derramarei do meu Espírito sobre todas as pessoas. Os filhos e as filhas de vocês anunciarão a minha mensagem; os moços terão visões, e os velhos, sonhos'”. Isso mostra que o cumprimento ocorreu no primeiro século. Ou seja, os “últimos dias” mencionados por Joel já se realizaram.

Para o preterismo completo, esse evento marcou o fim de uma era (Aion) e o início da nova aliança em Cristo. Se essa profecia ainda estivesse pendente, o evento de Atos 2 seria uma farsa. No entanto, a afirmação de Pedro é clara e categórica: o que estava acontecendo ali era o cumprimento do que Joel havia profetizado.

O equívoco do “culto do espírito santo”

Em muitas igrejas neopentecostais, há o costume de promover o chamado “culto do espírito santo”, com dia e hora marcados para que os crentes recebam a presença do Espírito. Essa prática, segundo Uismael Freire, é totalmente antibíblica. Não há qualquer referência nas Escrituras que apoie esse tipo de ritual.

Além disso, a ideia de que o Espírito Santo desce mediante ritos específicos é uma negação da promessa já cumprida. Como diz 1 Coríntios 6:19: “Será que vocês não sabem que o corpo de cada um de vocês é o templo do Espírito Santo, que vive em vocês e que lhes foi dado por Deus? Vocês não pertencem a vocês mesmos, mas a Deus”. Isso demonstra que a habitação do Espírito já é uma realidade presente.

Organizar cultos com base na busca pelo Espírito ignora a habitação permanente e contínua que a Nova Aliança promete. É como tentar reacender uma lâmpada que já está acesa. É, na prática, uma teologia de falta, e não de plenitude. E isso contradiz a teologia paulina e a realidade escatológica já consumada em Cristo.

O Espírito Santo já habita nos crentes

Outro texto-chave para esta compreensão é 1 Coríntios 3:16: “Será que vocês não sabem que são o templo de Deus e que o Espírito de Deus vive em vocês?”. Paulo reforça a ideia de que a presença do Espírito não depende de atos exteriores, mas é uma realidade interna e permanente.

Essa verdade é ilustrada por Uismael Freire com uma analogia: assim como uma pessoa casada não precisa sair de madrugada para buscar seu cônjuge que está na mesma cama, o crente não precisa ir ao monte, fazer vigílias ou participar de cultos específicos para encontrar o Espírito que já habita nele.

A teologia da presença permanente do Espírito é central para o evangelho da graça. Como enfatiza o teólogo R. C. Sproul, “Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, mas no coração regenerado do crente”. O foco deixa de ser o esforço humano e passa a ser a graça consumada em Cristo.

A crítica ao tradicionalismo evangélico

O tradicionalismo evangélico insiste que estamos vivendo os “últimos dias” e, por isso, ainda aguardamos o cumprimento da profecia de Joel 2. No entanto, essa interpretação ignora a clareza do texto de Atos 2, onde Pedro afirma que a profecia já se cumpriu.

Para estudiosos como N. T. Wright, essa insistência numa escatologia futura impede os crentes de viverem a realidade consumada do Reino. Wright argumenta que “a Nova Aliança inaugurada por Jesus é uma realidade histórica, não apenas uma esperança escatológica”. Isso implica que a vinda do Espírito já é uma realidade estabelecida.

Essa teologia da espera mantém os fiéis em estado de ansiedade espiritual e cria práticas religiosas desnecessárias. Em vez de viver a plenitude da presença divina, muitos ainda vivem como se a promessa estivesse por vir, e não como se já tivesse sido cumprida.

O testemunho de Paulo em Gálatas 2:20

Um dos textos mais poderosos para essa reflexão é Gálatas 2:20: “Assim, já não sou eu quem vive, mas é Cristo que vive em mim. E esta vida que agora vivo no corpo, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se deu a si mesmo por mim”. Paulo declara que Cristo vive nele não como uma promessa futura, mas como uma realidade presente.

Essa afirmação exclui a necessidade de buscar externamente Aquele que já habita internamente. O próprio apóstolo vivia a experiência da presença de Cristo e do Espírito como uma dádiva consumada, não como uma meta a ser alcançada por práticas religiosas.

É importante notar que Paulo nunca convoca os crentes a “buscarem o Espírito Santo” como se ele estivesse ausente. Pelo contrário, ele exorta a não entristecer o Espírito (Efésios 4:30), o que pressupõe que o Espírito já está presente nos crentes.

A confusão entre emoção e habitação

Um dos grandes problemas contemporâneos é confundir experiências emocionais com a presença real do Espírito. Muitos acreditam que só “sentem” o Espírito em determinados momentos de culto, criando uma espiritualidade baseada em sensações e não na verdade bíblica.

Essa perspectiva é criticada por teólogos como John MacArthur, que afirma: “A fé cristã não depende de emoções passageiras, mas da verdade eterna da Palavra de Deus”. A habitação do Espírito é um fato espiritual, não uma emoção intermitente.

A maturidade cristã consiste em viver pela fé e pela certeza da presença de Deus, mesmo quando não há emoções envolvidas. A busca incessante por sensações pode levar a uma idolatria emocional, que substitui a fé sólida por experiências fugazes.

Vivendo a plenitude da Nova Aliança

A Nova Aliança em Cristo nos dá tudo o que precisamos para a vida e piedade (2 Pedro 1:3). Nela, não precisamos buscar a presença de Deus como se ela estivesse distante. Em vez disso, somos chamados a viver conscientes de que já somos templos do Espírito.

Essa consciência muda radicalmente nossa prática de fé. Abandona-se a busca ritualística e abraça-se a realidade da presença consumada. A espiritualidade deixa de ser baseada em agendas e passa a ser vivida no cotidiano, com confiança e liberdade.

Como disse o teólogo Michael Horton, “a maior heresia da igreja contemporânea é esquecer que Cristo já fez tudo”. Essa afirmação nos lembra que a plenitude do Espírito já nos foi dada, e nossa missão agora é viver segundo essa realidade.

Conclusão

Se você crê em Cristo, o Espírito Santo já habita em você. Não há por que buscá-lo em cultos especiais, montes ou madrugadas. A fé que salva e santifica é aquela que se apoia na obra consumada de Cristo, não em rituais humanos.

Comece hoje a viver como alguém que já é habitação do Espírito. Abandone a mentalidade da escassez espiritual e abrace a plenitude que a graça oferece. Você não precisa buscar Aquele que já está presente.

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Bibliografia

  • A Bíblia Sagrada – Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH). Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.
  • Freire, Uismael. Ensinos sobre o Preterismo Completo e o Cumprimento das Profecias. Série de palestras e artigos teológicos, 2025.
  • Sproul, R. C. The Holiness of God. Wheaton, IL: Tyndale House, 1985.
  • Wright, N. T. Jesus and the Victory of God. Minneapolis: Fortress Press, 1996.
  • MacArthur, John. The Truth About the Lordship of Christ. Chicago: Moody Publishers, 1993.
  • Horton, Michael. Christless Christianity: The Alternative Gospel of the American Church. Grand Rapids: Baker Books, 2008.

Uismael Freire é pesquisador independente e escritor com dedicação integral ao estudo das Escrituras, especialmente no campo da escatologia. Nascido em 1969, atuou como pastor por mais de duas décadas no meio evangélico, onde desenvolveu profundo envolvimento com a teologia tradicional. A partir de 2014, iniciou uma transição significativa em sua jornada espiritual, passando a estudar o preterismo completo – corrente teológica que entende que as profecias bíblicas, inclusive as do Apocalipse, já se cumpriram no primeiro século.

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