É Legítimo Buscar o Selo do Espírito Santo e Falar em Línguas Hoje?
por: Uismael Freire
E aí, tudo bem contigo? Hoje a gente vai bater um papo sério sobre um assunto que levanta muitas dúvidas: ainda é válido buscar o selo do Espírito Santo e o dom de falar em línguas? Essa busca tem fundamento bíblico para os nossos dias, ou estamos tentando reviver algo que já se cumpriu lá no primeiro século? Vamos mergulhar juntos em Atos 2, entender o que realmente aconteceu ali e como isso se encaixa na escatologia consumada.
Os “últimos dias” em Atos 2: uma promessa com prazo definido
O texto de Atos 2:16-18, na versão NTLH, diz o seguinte:
“Isto é o que foi dito pelo profeta Joel: ‘E nos últimos dias, diz Deus, derramarei do meu Espírito sobre todo tipo de gente. Os filhos e as filhas de vocês anunciarão a minha mensagem; os moços terão visões, e os velhos sonharão.” (Atos 2:16-17, NTLH)
Aqui Pedro está deixando claro que aquele momento específico em Jerusalém, durante o Pentecostes, era o cumprimento da profecia de Joel 2:28-32. Ou seja, os “últimos dias” não eram uma era indefinida, mas um período com início, meio e fim bem definidos dentro da história de Israel.
O termo grego usado para “últimos dias” é “ἐν ταῖς ἐσχάταις ἡμέραις” (en tais eschatais hēmerais), e está vinculado a uma escatologia judaica de juízo iminente. No contexto do Novo Testamento, isso aponta diretamente para a crise final de Jerusalém, que culmina em 70 d.C. com a destruição do Templo.
A grande maioria dos pregadores modernos, no entanto, ainda insiste que esses “últimos dias” ainda estão em curso, estendendo esse tempo por séculos. Mas será que faz sentido falar em últimos dias que duram mais de dois mil anos? O propósito de um “último dia” é justamente ser o final de um processo, não uma extensão indefinida. Essa leitura contínua ignora o contexto histórico e cultural do texto.
“Toda carne”: quem são esses?
Quando o texto fala que o Espírito seria derramado sobre “toda carne”, muitos interpretam como sendo toda a humanidade. Mas vamos pensar juntos: Atos 2 descreve um evento dentro do contexto de uma festa judaica, o Pentecostes, reunindo judeus e prosélitos de várias partes do mundo conhecido da época. Eles eram descendentes das tribos de Israel, muitos dos quais estavam dispersos desde o cativeiro assírio e babilônico.
O termo grego “πᾶσα σάρξ” (pasa sarx) traduzido como “toda carne” se refere, nesse contexto, a toda a carne israelita. Ou seja, não estamos falando de um evento universal, mas de um evento nacional e pactual. Isso é confirmado pelo contexto imediato do capítulo e pela maneira como os ouvintes reagem: judeus de todas as nações, perplexos por ouvirem as maravilhas de Deus em suas próprias línguas.
Teólogos como Kenneth Gentry e R.C. Sproul sustentam essa interpretação. Sproul, por exemplo, enfatiza que o cumprimento de Joel foi pontual e não progressivo. Gentry afirma que “os últimos dias” estavam relacionados à aliança mosaica e não à igreja ao longo da história. Para eles, o Pentecostes foi a transição entre a velha e a nova aliança.
Jonathan J. Armstrong, por sua vez, destaca que o uso do dom de línguas foi uma resposta direta à dispersão de Israel. Ele interpreta Atos 2 como uma reversão do evento de Babel, trazendo unidade entre os descendentes dispersos.
O Propósito do falar em línguas
O dom de línguas descrito em Atos 2 não tem nada a ver com o que muita gente tenta reproduzir hoje. Atos 2:4 diz:
“Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.” (NTLH)
E os versículos seguintes (Atos 2:6-8) mostram claramente que cada pessoa presente ouvia a mensagem em sua própria língua materna. Aquilo era um milagre de comunicação, não um ritual de êxtase emocional ou uma linguagem angelical. As línguas ali eram humanas, identificáveis e com propósito claro: a pregação eficaz do evangelho para judeus dispersos.
Se hoje alguém afirma estar falando em línguas, é justo perguntar: que línguas são essas? Quem está entendendo? Qual é o propósito? A resposta geralmente aponta para uma prática desvinculada do modelo de Atos, focada mais na experiência subjetiva do que na comunicação objetiva da verdade.
O selo do Espírito: um marco da nova aliança
Paulo diz em Efésios 4:30:
“Não façam com que o Espírito Santo de Deus fique triste, pois ele é a marca de propriedade de Deus colocada em vocês, a qual é a garantia de que chegará o dia em que Deus os libertará completamente.” (NTLH)
Esse selo era a garantia de redenção, mas de uma redenção que se consumaria no juízo sobre Jerusalém. Era uma promessa ligada àquele tempo e àquela geração. Paulo escreve a comunidades de cristãos judeus e gentios que aguardavam ansiosamente o desfecho das promessas messiânicas. O selo do Espírito era o penhor dessa libertação iminente.
Por que continuar buscando o que já se cumpriu?
Buscar hoje o selo do Espírito ou o dom de línguas como sinal de espiritualidade é, no mínimo, uma incompreensão do texto bíblico. Mais que isso, pode ser uma porta para manipulação emocional e espiritual. Muitos líderes religiosos utilizam essa busca como instrumento de controle, criando dependência emocional em seus seguidores.
A boa notícia é que você não precisa mais de sinais para saber que é amado por Deus. Cristo consumou tudo. O selo foi dado, o Espírito cumpriu sua missão escatológica e hoje vivemos na plenitude dessa nova era. A verdadeira evidência de estar em Cristo não é falar em línguas ou buscar experiências místicas, mas viver em fé, justiça e amor.
A escatologia consumada e a nova realidade
Dentro da perspectiva do preterismo completo, todos os elementos escatológicos, incluindo o selo do Espírito e o dom de línguas, já se cumpriram no primeiro século. Isso significa que vivemos agora em uma era pós-consumação, na plenitude do reino. O que nos resta é viver essa realidade em liberdade, sem os fardos da religião e dos rituais repetitivos.
Essa visão não é uma invenção moderna. Já nos escritos dos Pais da Igreja vemos indícios de que os dons cessaram com a geração apostólica. Irineu, Orígenes e até Agostinho sugerem que os sinais foram para confirmação do evangelho e cessaram após sua plena divulgação.
Conclusão: Descanso na consumação
Se você se vê desconfortável com certas práticas religiosas ou sente que algo não se encaixa com o evangelho consumado, saiba que a análise bíblica e preterista oferece uma resposta firme: o selo do Espírito e o dom de línguas se consumaram naquela época, com propósito claro e limitado. Buscar hoje algo que pertence a uma economia que já se encerrou pode levar ao enganoso ciclo de práticas que aprisionam a alma em vez de trazer paz e liberdade.
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