Moisés abriu o Mar Vermelho ou o Mar de Juncos?
Uma análise crítica sobre a tradução bíblica.
Por: Uismael Freire
Quero, em primeira mão, alertar você, prezado leitor, de que este artigo foi elaborado com base em três estudiosos, egiptólogos e professores de arqueologia, que cito ao longo do texto.
Quando se aborda o episódio do Êxodo, um dos momentos mais emblemáticos da narrativa bíblica é o relato de Moisés abrindo o mar para que os israelitas escapassem do exército egípcio. A maioria das traduções modernas da Bíblia apresenta esse evento como a travessia do “Mar Vermelho”. No entanto, uma análise exegética do texto hebraico revela uma divergência significativa: o termo original utilizado é Yam Suf, que, literalmente traduzido, significa “mar de juncos” e não “Mar Vermelho”.
Este detalhe, à primeira vista sutil, carrega implicações teológicas, geográficas e históricas profundas. Como leitor interessado em compreender a veracidade e a fidelidade das Escrituras, é fundamental que você se aprofunde nesse tema.
A origem da expressão “Mar Vermelho”
A expressão “Mar Vermelho” é amplamente conhecida, repetida em pregações, liturgias e filmes épicos. Todavia, essa tradução parece ser o resultado de um provável equívoco ocorrido durante a elaboração da Septuaginta a primeira tradução do Antigo Testamento hebraico para o grego, realizada entre os séculos III e II a.C.
Na língua hebraica, o termo utilizado em passagens como Êxodo capítulo 14, versículo 21, é “יַם סוּף” (Yam Suf). A tradução literal dessa expressão é “mar de juncos”. Isto é, um corpo d’água caracterizado pela vegetação aquática presente em suas margens. Não há no hebraico nenhum indício de que se tratasse do Mar Vermelho, como entendido geograficamente hoje.
A versão grega, no entanto, traduziu Yam Suf como “Erythra Thalassa”, que significa “Mar Vermelho”. A razão para tal escolha pode ter sido a semelhança fonética, um erro de localização geográfica ou uma tentativa de associar o local do milagre a um mar já conhecido pelos gregos.
O que diz o texto hebraico?
Para compreender a profundidade dessa questão, observe o texto de Êxodo 14:21, em hebraico e em sua tradução mais próxima ao original:
“E Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o Senhor fez o mar retirar-se por um forte vento oriental toda aquela noite, e tornou o mar em seco, e as águas foram partidas.”
(Êxodo capítulo 14, versículo 21)
No hebraico original, o termo para “mar” aqui é Yam Suf. Isso indica que Moisés estava de frente para um “mar de juncos”, não para o Mar Vermelho, como muitas traduções modernas apresentam.
Esta divergência entre o texto original e as versões traduzidas não é apenas uma curiosidade linguística. Trata-se de um alerta para a importância da precisão exegética e da responsabilidade na tradução de textos sagrados.
Estudiosos que identificaram o erro
Embora o erro de tradução tenha sido identificado por diversos estudiosos ao longo dos séculos, três nomes contemporâneos se destacam por suas contribuições significativas:
- James K. Hoffmeier, egiptólogo e professor de arqueologia bíblica, em sua obra Israel in Egypt: The Evidence for the Authenticity of the Exodus Tradition (1996), argumenta que Yam Suf designa áreas de pântanos e lagunas no delta do Nilo, não o Mar Vermelho. Ele aponta que a localização do milagre foi alterada por uma tradução inadequada.
- Umberto Cassuto, renomado exegeta judaico, afirma em A Commentary on the Book of Exodus (1967) que Yam Suf deve ser entendido literalmente como “mar de juncos” e que a Septuaginta cometeu um erro ao traduzir como “Mar Vermelho”. Para ele, essa imprecisão compromete o entendimento geográfico do Êxodo.
- Gerhard von Rad, teólogo luterano e um dos principais estudiosos do Antigo Testamento, em sua obra Old Testament Theology (1962), reconhece que a tradução grega influenciou negativamente a tradição ocidental, afastando-a do original hebraico e gerando interpretações equivocadas por séculos.
Implicações da tradução incorreta
Você pode estar se perguntando: “qual a importância dessa diferença?” A resposta envolve três aspectos cruciais:
1. Alteração da geografia bíblica
Ao traduzir Yam Suf como “Mar Vermelho”, desloca-se o local do milagre para uma região distinta. O Mar Vermelho está situado entre o nordeste da África e a Península Arábica, uma distância significativa das prováveis rotas seguidas pelos hebreus em sua fuga do Egito. Já o “mar de juncos” refere-se, possivelmente, a áreas pantanosas próximas ao delta do Nilo ou a lagos sazonais — regiões que estariam mais alinhadas com os dados arqueológicos e geográficos disponíveis.
2. Ruptura com o texto original
A perpetuação da expressão “Mar Vermelho” representa um afastamento do texto hebraico e, consequentemente, da intenção original do autor bíblico. A fidelidade às palavras inspiradas é um princípio essencial para qualquer leitor que busca compreender as Escrituras com reverência e exatidão.
3. Permanência do erro por milênios
Mesmo após séculos de estudos bíblicos, críticas textuais e avanços na arqueologia, a maioria das traduções continua utilizando o termo “Mar Vermelho”. Isso demonstra como um equívoco inicial na tradução pode enraizar-se profundamente na tradição religiosa, moldando a compreensão popular de eventos fundamentais da fé.
Por que as traduções modernas ainda utilizam “Mar Vermelho”?
Embora o erro tenha sido reconhecido, a substituição de termos consagrados apresenta resistências. A tradição, aliada à força litúrgica e cultural da expressão “Mar Vermelho”, continua prevalecendo. Alterar esse termo exigiria uma reeducação teológica e cultural de milhões de leitores e intérpretes.
Contudo, a manutenção desse erro levanta um ponto crucial: a Bíblia, embora inspirada, foi transmitida por mãos humanas — e, portanto, sujeita a erros de interpretação e tradução.
O que você, como leitor crítico, pode fazer?
A sua busca por uma compreensão mais precisa da Bíblia é um passo importante para um cristianismo mais consciente e responsável. Ao reconhecer que há falhas na transmissão de certos termos — ainda que involuntárias você está se abrindo para uma leitura mais profunda e conectada ao contexto histórico e linguístico das Escrituras.
Recomenda-se, portanto, que você consulte versões da Bíblia com aparato crítico, como aquelas que apresentam notas de rodapé sobre termos hebraicos e variantes de tradução. Estude também os textos interlineares hebraico-português e busque o apoio de obras de exegese confiáveis.
Conclusão: uma travessia além da tradição
O episódio da travessia do mar continua sendo um símbolo poderoso de libertação e fé. No entanto, para que esse símbolo seja compreendido com fidelidade, é necessário que você vá além da tradição e investigue as raízes linguísticas e históricas do texto sagrado.
A tradução “Mar Vermelho” provavelmente se originou de um erro involuntário na Septuaginta, mas sua persistência até hoje evidencia como equívocos podem atravessar milênios, moldando crenças e interpretações.
Perguntar-se “por que não corrigir a tradução para refletir o termo original?” é um sinal de maturidade espiritual. Ao compreender que o texto hebraico fala de um “mar de juncos” e não do “Mar Vermelho”, você começa a trilhar uma jornada mais consciente rumo à verdade bíblica.
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Agradecimentos
A elaboração deste artigo contou com o apoio intelectual e inspiração de diversos estudiosos e fontes confiáveis, cuja contribuição para os estudos bíblicos e arqueológicos tem sido fundamental para o avanço de uma leitura mais crítica e fiel das Escrituras.
Agradeço, em primeiro lugar, aos professores e pesquisadores James K. Hoffmeier, Umberto Cassuto e Gerhard von Rad, cujas obras foram essenciais para a fundamentação teórica e exegética deste trabalho. Seus esforços acadêmicos continuam iluminando o caminho de quem busca compreender a Bíblia à luz de seus contextos originais.
Manifesto também minha gratidão às instituições de ensino e aos centros de pesquisa em arqueologia bíblica e linguística hebraica, cujos acervos e publicações fornecem a base sólida para a investigação científica das Escrituras.
Agradeço ainda aos leitores da Revista Ferramenta Bíblica, cujo interesse por uma fé consciente e fundamentada me motiva a seguir contribuindo com conteúdos que promovem reflexão, estudo sério e amadurecimento espiritual.
Por fim, expresso minha gratidão a Deus, fonte de toda sabedoria, por permitir que a investigação e o conhecimento coexistam com a fé, conduzindo-nos a uma jornada mais profunda de verdade e discernimento.
Uismael Freire
São Gonçalo, RJ
Revista Ferramenta Bíblica – ferramentabiblica.com.br
Bibliografia
- Hoffmeier, James K. Israel in Egypt: The Evidence for the Authenticity of the Exodus Tradition. Oxford University Press, 1996.
- Cassuto, Umberto. A Commentary on the Book of Exodus. The Magnes Press, Hebrew University, 1967.
- Von Rad, Gerhard. Old Testament Theology: Volume I – The Theology of Israel’s Historical Traditions. Westminster Press, 1962.
- Freedman, David Noel (ed.). Eerdmans Dictionary of the Bible. Wm. B. Eerdmans Publishing, 2000.
- Brown, Francis; Driver, S.R.; Briggs, Charles A. The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon. Hendrickson Publishers, 1994.
- Tov, Emanuel. Textual Criticism of the Hebrew Bible. Fortress Press, 2001.
- Koehler, Ludwig; Baumgartner, Walter. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. Brill, 1994–2000.
- Septuaginta: A tradução dos Setenta. Edição crítica com aparato. Sociedade Bíblica do Brasil, diversas edições.
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