O Que Significa Vir Com As Nuvens?
por: Uismael Freire
O conceito de “vir com as nuvens” é frequentemente associado ao retorno de Jesus em um evento apocalíptico de grande escala, no qual Ele descerá do céu, visível a todos, trazendo juízo e vingança. Essa interpretação, popularmente adotada, frequentemente evoca imagens de um Cristo poderoso, montado nas nuvens, com raios e trovões, como descrito em filmes, pregações e tradições. No entanto, uma leitura mais cuidadosa das escrituras, associada à exegese e à hermenêutica, revela uma compreensão mais profunda sobre o significado desta expressão bíblica.
A “Vinda Nas Nuvens”: A Interpretação Popular e a Realidade Bíblica
A visão popular do retorno de Jesus é de um evento grandioso e visível, onde Ele descerá das nuvens, acompanhado por raios e trovões, em um evento mundial. O cenário é frequentemente descrito como uma grande catástrofe global, onde todos os olhos o verão, e a terra será destruída. Contudo, ao examinarmos as Escrituras de forma mais minuciosa, especialmente as palavras de Jesus e os profetas do Antigo Testamento, percebemos que essa interpretação não é completamente fiel ao contexto original.
A expressão “vir com as nuvens do céu” não faz referência a um evento físico e visível no futuro, mas a uma linguagem simbólica e figurada que se relaciona ao juízo divino. O uso de “nuvens” como símbolo de juízo é um tema recorrente nas Escrituras, particularmente no contexto da destruição de cidades ímpias, como o exemplo de Isaías 19:1, onde Deus é descrito como vindo em uma nuvem veloz para trazer julgamento sobre o Egito. No entanto, ninguém viu fisicamente Deus descendo do céu. A linguagem figurada é usada para ilustrar a natureza do juízo, e não para descrever um evento literal e visual.
O Juízo Sobre Jerusalém: A Destruição do Templo em 70 d.C.
Um dos principais pontos que desmistifica a ideia de um evento apocalíptico futuro é a interpretação de que o “retorno nas nuvens” já ocorreu no primeiro século, com a destruição de Jerusalém e do templo, no ano 70 d.C. Este evento foi descrito por Jesus como o cumprimento de uma série de profecias, muitas das quais se referem ao juízo de Deus sobre a cidade de Jerusalém e seus habitantes. A “vinda nas nuvens” se refere, então, a esse juízo específico, e não a uma catástrofe mundial futura.
Jesus, em Marcos 14:61-62, disse: “Mas ele (Jesus) se calou e nada respondeu. Perguntaram-lhe de novo: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus Bendito?’ E Jesus afirmou: ‘Eu sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Poderoso, vindo com as nuvens do céu.'” Essas palavras de Jesus foram dirigidas ao sumo sacerdote Caifás e aos presentes naquele julgamento, e não a “todo o cosmos”. A expressão “vir nas nuvens” é, portanto, uma referência a um juízo que aconteceria localmente, em Jerusalém, e não ao mundo todo.
A Linguagem Figurativa de Juízo: A Tradição Profética
A ideia de que “vir nas nuvens” é uma linguagem figurada não é nova. Ao longo do Antigo Testamento, o Senhor é frequentemente descrito como vindo em nuvens para trazer juízo. Em Isaías 19:1, por exemplo, diz-se que Deus viria ao Egito montado em uma “nuvem veloz”. Este evento, embora descrito de forma dramática, não foi um evento literal em que o povo viu Deus fisicamente. Em vez disso, é uma metáfora para a ação de Deus na história, trazendo julgamento sobre nações.
Apocalipse 1:7, frequentemente citado para sustentar a ideia de que Jesus retornará fisicamente nas nuvens, de fato descreve a “vinda nas nuvens”, mas é importante lembrar que esta passagem também é uma metáfora para o juízo. Ela se encaixa no padrão profético do Antigo Testamento, onde as nuvens são símbolos da presença de Deus e de seu juízo. Portanto, ao ler esse versículo, é fundamental compreender que a “vinda nas nuvens” é um símbolo de juízo, não um evento literal e físico.
Apocalipse 1:7 diz: “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até os que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém.” Este versículo, embora pareça indicar um retorno físico de Jesus, deve ser interpretado à luz do contexto mais amplo da Escritura, em que a “vinda nas nuvens” está associada ao juízo e não a uma aparição física visível a todos.
O Juízo de Jerusalém: O Cumprimento das Profecias
Lucas 21:20-22 afirma: “Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabeis que a sua desolação está próxima. Então, os que estiverem na Judeia, fujam para os montes; os que estiverem no meio da cidade, saiam dela; e os que estiverem nos campos, não entrem nela.” Esse é um claro aviso de Jesus sobre a destruição de Jerusalém, um juízo divino que estava prestes a ocorrer. A “vinda nas nuvens” de que Jesus falou era, portanto, um evento ligado ao juízo sobre Jerusalém, não a um evento global futuro.
A destruição de Jerusalém em 70 d.C. foi o cumprimento das profecias de juízo que Jesus anunciou. Ele havia advertido sobre a ruína da cidade e do templo, e a vinda nas nuvens se refere a esse evento, no qual o juízo de Deus se abateu sobre a cidade que rejeitou o Messias.
A Responsabilidade da Geração de Jesus
Jesus afirmou em Mateus 23:35: “Para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar.” Essa frase é crucial para entender o contexto do juízo que se abateria sobre Jerusalém. A geração que rejeitou os profetas e, por fim, a rejeição de Jesus, estava sendo responsabilizada pelo sangue dos profetas derramado ao longo da história. Por isso, Jerusalém estava sob julgamento, e a “vinda nas nuvens” de Jesus representava esse juízo divino.
Em Mateus 24:34, Jesus afirma: “Eu afirmo a vocês que isto é verdade: essas coisas vão acontecer antes de morrerem todos os que agora estão vivos.” Esta declaração deixa claro que os eventos preditos por Jesus, incluindo a destruição de Jerusalém, aconteceriam dentro da geração daqueles que estavam vivos no momento em que Ele falou. Jesus não estava falando de um evento futuro distante, mas de um cumprimento imediato.
Não Haverá Destruição do Mundo: A Terra Permanece
Um dos aspectos fundamentais dessa interpretação é que a terra não será destruída, como muitos teólogos afirmam. De acordo com Eclesiastes 1:4, “Geração vai, geração vem, mas a terra permanece para sempre.” Isso implica que a destruição do mundo, como frequentemente é interpretada, não acontecerá. Em vez disso, as profecias de juízo se referem a eventos locais, como a destruição de Jerusalém em 70 d.C., e não a uma catástrofe global futura.
Esse entendimento é importante, pois desmistifica a ideia de que o mundo será destruído no “fim dos tempos”. O juízo que está sendo descrito na Bíblia é o juízo que se deu sobre Jerusalém e sobre a geração que rejeitou Jesus. A terra, de acordo com Eclesiastes 1:4, “permanece para sempre”.
Conclusão: O Retorno de Jesus e a Destruição de Jerusalém
Em conclusão, a expressão “vir com as nuvens” não se refere a um evento futuro, mas sim a algo que já aconteceu no primeiro século. O juízo de Deus sobre Jerusalém foi o cumprimento das profecias de Jesus, e a “vinda nas nuvens” simboliza esse juízo. A destruição de Jerusalém em 70 d.C. foi o “grande dia do Senhor” que foi predito pelos profetas.
A “vinda nas nuvens” de Jesus, portanto, já aconteceu espiritualmente e não fisicamente. A terra não será destruída, como muitas vezes se pensa, e a destruição de Jerusalém foi um evento local que se cumpriu de acordo com as palavras de Jesus. A geração que rejeitou os profetas foi responsabilizada, e o juízo se abateu sobre ela.
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