Quem é a Besta que Subiu do Mar? em Apocalipse 13: Uma Análise à Luz do Preterismo Completo

Quem é a Besta que Subiu do Mar? em Apocalipse 13: Uma Análise à Luz do Preterismo Completo

por: Uismael Freire

Poucos temas despertam tanta curiosidade e debates entre cristãos como a figura da Besta do Apocalipse. Talvez você já tenha ouvido que ela seria o anticristo, um líder político global, o Papa ou até mesmo uma manifestação demoníaca futura. Mas, será que é isso mesmo que o texto bíblico quer dizer? Quando aplicamos uma leitura literal e futurista, acabamos distorcendo o sentido original da mensagem e caindo em interpretações que não dialogam com o contexto histórico e cultural em que João escreveu o Apocalipse.

Temos aqui no blog um artigo sobre a Besta que subiu da terra. No estudo de hoje, vamos mergulhar em Apocalipse 13:1-10, analisando verso a verso a descrição da Besta que subiu do mar. Usaremos a chave interpretativa do Preterismo Completo, que entende que todas as profecias bíblicas foram cumpridas na transição da antiga aliança para a nova, tendo seu clímax na obra consumada de Cristo. Essa abordagem nos leva a compreender que João, ao escrever, não estava descrevendo eventos distantes no futuro, mas realidades prestes a acontecer no primeiro século, em plena tensão entre o povo de Deus e o Império Romano.

A visão inicial: a besta que sobe do mar

João começa descrevendo:

Apocalipse 13:1 “Então vi sair do mar um monstro que tinha dez chifres e sete cabeças; sobre cada chifre havia uma coroa, e em cada cabeça um nome de ofensa contra Deus.” (NTLH)

O “mar” aqui não deve ser entendido de forma literal. No contexto profético e apocalíptico, especialmente considerando Apocalipse 17:15, “o mar” simboliza povos, multidões, nações e línguas. Portanto, João está nos mostrando que essa besta surge de um ambiente densamente populoso e politicamente ativo o mundo mediterrâneo dominado por Roma.

Essa linguagem é consistente com o simbolismo veterotestamentário. O livro de Daniel, no capítulo 7, apresenta animais que saem do mar como metáforas de impérios mundiais. O paralelo é direto: o que João vê é uma atualização da visão de Daniel, mas com foco no seu próprio tempo. Como ressalta o teólogo Kenneth Gentry, o Apocalipse “não é um enigma indecifrável para o século XXI, mas uma mensagem urgente para a Igreja do século I” (Gentry, Before Jerusalem Fell, p. 102).

Ligação direta com Daniel 7

Não se pode interpretar Apocalipse 13 isoladamente de Daniel 7. Em Daniel, lemos:

Daniel 7:7 “Depois, na minha visão da noite, vi ainda um quarto animal, que era diferente de todos os outros e muito assustador. Era muito forte, tinha dentes de ferro enormes e destruía com eles as suas vítimas. Ele as devorava e pisava com os pés aquilo que sobrava. Era diferente de todos os animais que eu já tinha visto e tinha dez chifres.” (NTLH)

Daniel descreve quatro impérios: Babilônia (o leão alado), Medo-Pérsia (o urso), Grécia (o leopardo) e, finalmente, o império aterrorizante Roma. João retoma essa imagem e a aplica à realidade de sua época. Ao dizer que a besta que ele vê se assemelha a um leopardo, tem pés de urso e boca de leão, João está indicando que o Império Romano incorporava e superava as características dos impérios anteriores, absorvendo culturas, crenças e práticas.

F. F. Bruce observa que “o monstro de Apocalipse 13 é um compósito dos reinos de Daniel 7, simbolizando a continuidade e intensificação do poder imperial até seu auge em Roma” (New Testament History, p. 384).

Dez chifres e sete cabeças: poder e autoridade

Os “dez chifres” simbolizam poder e força militar, enquanto as “sete cabeças” apontam para governos ou líderes específicos. Historicamente, podemos identificar dez imperadores que marcaram o período que antecedeu a queda de Jerusalém no ano 70: Júlio César, Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Galba, Otão, Vitélio e Vespasiano.

Interessante notar que Galba, Otão e Vitélio governaram em um mesmo ano (69 d.C.), chamado na história de “O Ano dos Quatro Imperadores”, período de grande instabilidade que, no entanto, não destruiu Roma pelo contrário, fortaleceu a ascensão de Vespasiano e deu início à dinastia Flaviana.

As coroas sobre os chifres indicam autoridade política plena. E os nomes de blasfêmia nas cabeças remetem à prática dos imperadores romanos de se autoproclamarem divinos e exigirem culto, algo abominável à fé judaica e cristã. Isso é coerente com o que o historiador Tácito relata em seus Anais, descrevendo a imposição do culto imperial.

O dragão e a transferência de poder

João prossegue:

Apocalipse 13:2 — “A criatura que vi parecia um leopardo; os seus pés eram como os de urso, e a sua boca era como a boca de um leão. O dragão deu a ela o seu próprio poder, o seu trono e grande autoridade.” (NTLH)

O dragão aqui já foi identificado em Apocalipse 12 como “a antiga serpente, chamada Diabo ou Satanás”. No contexto histórico, esse dragão representa a oposição espiritual a Deus, manifestada por meio de poderes terrenos. João associa o dragão à dinastia herodiana, que funcionava como um instrumento político-religioso a serviço de Roma.

Assim, o dragão “entrega” seu trono à besta porque o poder romano é, em última instância, a culminação da resistência a Cristo e ao seu Reino. O teólogo David Chilton explica: “O dragão não cria um novo império; ele dá continuidade à oposição a Deus por meio da autoridade romana” (The Days of Vengeance, p. 335).

A ferida mortal e a cura

Apocalipse 13:3 “Uma das cabeças do monstro parecia ter sido cortada e morta, mas o ferimento mortal havia sido curado. O mundo inteiro ficou admirado e seguiu o monstro.” (NTLH)

Essa “ferida mortal” remete ao suicídio de Nero em 68 d.C., evento que mergulhou Roma em caos político. Em menos de um ano, três imperadores se sucederam, mas a “cura” veio com a ascensão de Vespasiano, que restaurou a estabilidade do império.

Para o leitor do primeiro século, isso explicava como, mesmo após uma crise tão profunda, Roma voltou a dominar com força. A “admiração” mundial pela besta era a fascinação pelo poder imperial que parecia invencível.

Perseguição e domínio temporário

Apocalipse 13:5-7 “Foi permitido ao monstro usar o seu poder durante quarenta e dois meses. Ele falava contra Deus, contra o nome de Deus, contra o lugar onde Deus mora e contra todos os que já estão no céu. Ele recebeu permissão para lutar contra o povo de Deus e vencê-lo. Recebeu também autoridade sobre todas as tribos, povos, línguas e nações.” (NTLH)

Os quarenta e dois meses correspondem a três anos e meio o mesmo período do cerco a Jerusalém que antecedeu sua destruição no ano 70. Esse detalhe conecta diretamente Apocalipse 13 a Daniel 7:25 e 12:7, que usam a mesma medida simbólica para um tempo de grande aflição.

Esse período marca a intensificação da perseguição contra cristãos e judeus que não se submetiam ao culto imperial. Nero e Vespasiano foram protagonistas dessa opressão, ecoando a linguagem de Daniel sobre o “pequeno chifre” que guerreia contra os santos.

O livro da vida e a fidelidade até o fim

Apocalipse 13:8-10 “Todos os que vivem na terra vão adorar o monstro, todos aqueles que não têm o nome escrito desde a criação do mundo no livro da vida do Cordeiro que foi morto. ‘Quem deve ser preso, será preso; quem deve ser morto pela espada, pela espada será morto.’ Isso exige que o povo de Deus tenha paciência e fé.” (NTLH)

No contexto, “terra” refere-se primariamente à terra de Israel. Os que adoram a besta são aqueles que, rejeitando a Cristo, se aliam ao poder romano. O “livro da vida” é uma metáfora para a pertença ao povo de Deus da nova aliança.

A advertência final paciência e fé é um chamado à resistência, não pela força das armas, mas pela fidelidade ao testemunho de Jesus, mesmo diante da morte.

Conclusão

A leitura preterista de Apocalipse 13:1-10 nos leva a ver a besta não como uma figura futura, mas como a representação histórica do Império Romano no primeiro século, com toda a sua máquina militar, política e religiosa voltada contra o povo de Deus. Essa visão se harmoniza com Daniel 7, com a história secular e com o contexto imediato das igrejas que receberam a carta de João.

Assim, o texto não está descrevendo um “fim do mundo” distante, mas o fim de uma era o fim da aliança antiga, marcado pelo juízo sobre Jerusalém e pela vitória do Cordeiro.

Para nós hoje, a mensagem é clara: a verdadeira fidelidade a Cristo não se mede pela ausência de perseguição, mas pela perseverança em meio a ela. As “bestas” mudam de forma ao longo da história, mas continuam representando sistemas e poderes que se opõem ao governo de Deus. A nossa chamada é a mesma dos primeiros cristãos: paciência, fé e confiança de que o Cordeiro já venceu.

Quer continuar explorando temas profundos da Palavra sob a perspectiva do Evangelho Consumado e da Escatologia Consumada? Continue navegando na Revista Ferramenta Bíblica e descubra outros artigos que vão edificar e transformar sua compreensão das Escrituras.

Bibliografia

  • Bruce, F. F. New Testament History. Doubleday, 1983.
  • Chilton, David. The Days of Vengeance: An Exposition of the Book of Revelation. Dominion Press, 1987.
  • Gentry, Kenneth L. Before Jerusalem Fell: Dating the Book of Revelation. American Vision, 1998.
  • Tácito. Anais. Tradução de Lacy, W.

Uismael Freire é pesquisador independente e escritor com dedicação integral ao estudo das Escrituras, especialmente no campo da escatologia. Nascido em 1969, atuou como pastor por mais de duas décadas no meio evangélico, onde desenvolveu profundo envolvimento com a teologia tradicional. A partir de 2014, iniciou uma transição significativa em sua jornada espiritual, passando a estudar o preterismo completo – corrente teológica que entende que as profecias bíblicas, inclusive as do Apocalipse, já se cumpriram no primeiro século.

1 comentário

Publicar comentário

Você pode ter perdido

error: O conteúdo é protegido!!